ENTREVISTA COM ROB, MARINA E MARIO, AUTORES DE TERAPIA

Mesmo com uma vida aparentemente normal, o personagem central, um rapaz como qualquer outro, não se sente feliz. E o fato de não desconfiar do motivo da tristeza que sente apenas aumenta sua angústia. Com cerca de vinte anos, ele estuda e trabalha, tem uma boa família e uma namorada, mas sente-se constantemente deslocado, aumentando o número de questões às quais não sabe responder.

Dessa maneira, conversando com seu terapeuta, ele passa a refletir sobre diversos aspectos de sua vida e de sua forma de agir, seja explorando situações que enfrenta no presente, seja se recordando de momentos vividos anteriormente. Nestas consultas, ele expõe suas dúvidas e temores, vasculha sua essência e seus sonhos em busca de um fio condutor que possa ser usado para costurar o que ele sente, vive e deseja.

E, em meio a tudo isso se refugia em velhas canções de blues, cujas letras empoeiradas parecem acolher e entendê-lo de uma maneira muito mais satisfatória que a vida real.

Esta Webcomic publicada no Petisco chegará ao fim neste ano e deixará saudades. Para conhecer mais sobre o projeto e os autores, nós da Imperial HQs realizamos uma breve entrevista! Confira!

Olá! Primeiramente gostaríamos de saber, como vocês decidiram se tornar autores de histórias em quadrinhos?
Rob: Eu sempre quis escrever quadrinhos. Como sou leitor de quadrinhos desde criança, essa vontade já existia mesmo antes de eu começar a escrever ficção.

Mario: Não sei se foi uma “decisão” consciente. Isso vem comigo desde que me lembro, desde sempre. Desenho desde muito pequeno e nunca parei, e sempre tive essa coisa de contar histórias com desenhos. Sou obcecado pelas HQs e sempre tive a ideia de que queria fazer isso como profissão, mesmo sem saber como tudo funcionava. Minha vida foi sempre pautada por essa busca.

Marina: Realmente não foi uma decisão! Sempre gostei muito de escrever, e, em Terapia, consegui aliar esse hobby à paixão por psicologia.

Quais são as suas principais influências (obras e autores que lhes inspiram)?
Rob: Minha principal influência de quadrinhos é Will Eisner, que, na verdade, é uma das principais referências que tenho em tudo o que escrevo, não apenas HQs. Mas existem alguns trechos que me inspirei em outros autores (o casamento entre imagem e texto de Sin City, de Frank Miller, por exemplo, é a inspiração para algumas páginas que escrevi). Mas existem muitos outros autores, não necessariamente de quadrinhos, que uso como referência. Aliás, como Terapia foi a primeira HQ que escrevi, uma das minhas principais referências foi o cinema clássico, porque essas duas linguagens podem ser bastante parecidas (mas nunca completamente iguais).

Mario: Eu leio HQ desde criança e já mergulhei em praticamente todos os tipos e estilos que pudesse passar pelas minhas mãos. Gosto de quase tudo, na verdade, em relação aos gêneros narrativos. Como linguagem, sou apaixonado por tudo mesmo. Minhas referências e influências ariam com o tempo, pois sempre vamos conhecendo coisas novas. Mas poderia citar alguns autores e obras: Will Eisner, Bill Watterson, Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá, Stuart Immonen, Cameron Stewart, David Mack, Bill Sienckiewicz, Craig Thompson, Jeff Smih, Terry Moore… Mas eu estaria sendo injusto se não citasse meu amor pela pintura (considero Toulouse-Lautrec e Van Gogh como influências, também), fotografia (Cartier-Bresson, Diane Arbus…) e,claro, cinema e animação. Cinema e fotografia influenciam muito meu trabalho com Quadrinhos.

Marina: Minhas influências são totalmente diferentes das do Rob e do Mario, porque são obras da Psicologia e literatura. Freud, Jung, Hillman, Kafka, Yalom, Goethe e Calligaris são alguns exemplos.

Como ocorreu a entrada no Petisco e como é a experiencia de fazer parte deste projeto?
Mario: Em 2011 nascia a ideia do Petisco, um coletivo de autores, todos já amigos, para publicar Quadrinhos em um site, com a proposta de uma página semanal e várias séries, como era o formato de publicação dos jornais lá no começo do século XX. Os autores originais, todos colegas desde a época da Front e do Quarto Mundo, começaram a formar equipes. Fui convidado para integrar o conselho editorial e a criar uma série para o site. Como não queria republicar o material que já tinha, achei que era uma oportunidade de treinar a produção seriada, semanal, com uma série nova.

De onde surgiu a ideia e como foi o processo de criação do universo e personagens de Terapia?
Mario: Minha ideia inicial para a série nova era abordar sessões de terapia, em tiras curtas, sem personagem fixo (além do psicólogo). Isso evoluiu para a ideia de fazer um paciente fixo, com mais páginas e camadas, e desenvolver todo o processo de autoconhecimento dele. Eu tinha começado a fazer terapia pouco tempo antes, e lia sobre o assunto, assistia seriados e filmes. Estava muito interessado em psicologia.

Falei da ideia para a Marina, então estudante de Psicologia, para ver se ela topava me ajudar a elaborar esse conceito e a escrever também.

Rob: Quando eu recebi o convite do Mario e da Marina, o projeto ainda estava no estágio inicial. Se não me engano, a ideia naquele momento era narrar uma história que contasse o relacionamento entre o personagem central e seu terapeuta. Começamos a desenvolver o garoto e seu universo e, logo no primeiro momento, percebi que ele tinha tantos problemas consigo mesmo que precisava de uma válvula de escape. Aí surgiu o blues. Eu sou apaixonado por blues clássico, especialmente aquele feito até a década de 50, mas esse elemento não é aleatório dentro da história. Como essas músicas são emocionalmente intensas demais, elas serviram como um contraponto perfeito ao fato do personagem central ser bastante retraído no que diz respeito ao que sente. Quando o blues entrou na equação, foi como se uma cortina tivesse caído e esse personagem começou a se mostrar totalmente nos roteiros. Mas, pelo que me lembro, se passaram dois ou três capítulos até que seu universo estivesse totalmente composto.

Marina: Além do que o Rob e o Mario já contaram, posso dizer que eu estava começando o terceiro ano de Psicologia e achei que seria inviável para mim condensar tudo o que estava aprendendo a “apenas” uma tira semanal! Pensei que, ao tornar a história mais completa e complexa, poderíamos mostrar aos leitores que terapia não é “coisa de louco”, que é uma caminhada do paciente junto ao terapeuta em busca de uma consciência mais aprofundada de si mesmo. Por isso optamos por um garoto comum como personagem, sem grandes traumas, sem “doenças” psíquicas, alguém que poderia ser qualquer um de nós, pois assim podemos contribuir para a redução (e, espero que em breve, extinção) do estigma que cerca a psicologia e a saúde mental em geral.

O universo e os personagens têm muito de nossas experiências pessoais nos consultórios psicológicos, experiência de vida, e muita influência das teorias e conteúdos que fui aprendendo ao longo da graduação. O terapeuta foi evoluindo conforme eu caminhava pela psicologia: no primeiro capítulo o terapeuta procura entender o que levou o garoto a procurar terapia, e, nesta mesma época, o único contato que eu tinha com pacientes era justamente fazendo entrevistas de anamnese e aplicando alguns testes psicológicos. Com o passar do tempo, tive alguns pacientes, me formei, comecei a atender os mais diversos casos tanto em consultório, quanto no aprimoramento que fiz, e certamente isso transparece na história, com o aprofundamento das questões do garoto e das intervenções do terapeuta.

O personagem principal de Terapia é apaixonado por Blues. Vocês costumam ouvir músicas durante o processo criativo?
Rob: Bastante. Muita gente imagina que eu ouço apenas blues para escrever Terapia, mas eu escuto de tudo, de rock clássico a heavy metal, passando por música clássica ou, claro, blues. Mas, na verdade, eu só ouço música enquanto escrevo quando “não estou ouvindo a música”. Funciona mais ou menos assim: até eu encontrar o texto, preciso de silêncio absoluto. Quando o texto finalmente decola, eu ligo música para continuar a escrever, mas não consigo mais prestar atenção nela, apenas no texto.

Mario: Sim, música é algo imprescindível na minha vida. Não só durante o trabalho, mas a qualquer momento. Já toquei em várias bandas, chegamos a gravar algumas composições próprias e participei do circuito independente do interior paulista, mas nunca fomos muito longe. Existe uma ligação emocional com a música que me conduz no meu trabalho, às vezes como mantras, às vezes como forma de energizar ou acalmar o ritmo de tudo.

Falando em música, Terapia ganhou uma playlist no Spotify, feita por um leitor, contendo todas as músicas que a HQ cita, na ordem em que aparecem nos capítulos: https://open.spotify.com/user/22ahu63ky3acpbam37id24mfy/playlist/6n24vSOXRxtRqTIAo1eFgY

Marina: Música faz parte da minha vida, sem dúvida, mas não exatamente do meu processo em Terapia. Antes de cada capítulo, o Rob e eu nos reunimos para um brainstorming, conversamos sobre os rumos da história e os assuntos que abordaremos no arco. São reuniões longas, geralmente regadas a café, e a música acaba entrando só nas ideias de blues mesmo. Depois da reunião o Rob escreve o capítulo baseado em nossa conversa, e então partimos para uma (geralmente intensa) troca de e-mails. Neste momento a música fica de fora, pois preciso estar atenta ao que estou lendo e escrevendo (as falas do terapeuta, basicamente), mantendo a coerência entre o que já publicamos e o que pretendemos publicar, pensando nas teorias psicológicas e considerando o processo do garoto como o de um paciente do consultório. É um trabalho bastante detalhista!

Sabemos que o mercado de quadrinhos nacional é complicado, e por isso, nós autores temos que manter o equilíbrio entre o trabalho de quadrinista e outras responsabilidades. Como foi a rotina de vocês durante a criação de Terapia?
Rob: Foi uma loucura, na verdade. Como nós três temos outras atividades (profissionais ou não), em alguns momentos fazer reuniões era bastante difícil. No começo, as reuniões presenciais – ao menos entre eu e a Marina para discutirmos roteiro, mas que às vezes contavam com o Mario – eram mais comuns. Com o tempo, tivemos que partir para o Skype, porque as agendas não permitiam mais esses encontros. Elas ainda aconteciam, mas eram mais raras – mas como já estávamos mais sintonizados, esse sistema funcionou. Mas, basicamente, 90% do que fizemos (inclusive aprovação e correção de roteiros e de artes, e conversas sobre o projeto como um todo) aconteceram por e-mail.

Mario: Acho que minha parte é a mais solitária. Trabalho em casa, e durante pelo menos 3 anos morei sozinho aqui. Mesmo tendo minha esposa em casa, a imersão que tenho com meus projetos em geral me isola de quase tudo, perco a noção de tempo, de espaço… Existem esforços diferentes entre escrever e ilustrar, e meu processo criativo é sempre um pouco caótico, por mais que eu tente organizar a produção. Como tenho muitos outros projetos, aulas, eventos e freelas, fazer Terapia é apenas uma das várias tarefas da minha semana, e infelizmente não consigo dedicar muito tempo a esse projeto. Por isso a HQ acabou passando a ser quinzenal nos últimos anos. A gente mantém muito contato e sempre que possível, se reúne, mas como moro em Campinas, não consigo participar muito da elaboração do roteiro, e o Rob e a Marina não participam do desenho. Mas, claro, estamos em contato e mostramos uns pros outros cada etapa. Uma coisa legal que desenvolvemos com os anos é um tipo de confiança cega: cada um confia no outro e no que tem de melhor a oferecer pra esse projeto. Então, às vezes chego com a página pronta, ou às vezes aprovamos o roteiro em poucas versões.

Marina: de fato nossas agendas raramente nos permitem encontros presenciais, mas fazemos todo o possível para que isso ocorra. Diferente da percepção do Rob, tenho a impressão que nosso trabalho via e-mail não chega a representar 90%, rs, mas muita coisa acontece via internet sim! A parte do roteiro é muito mais rápida de se produzir: nos reunimos, decidimos o capítulo todo, o Rob escreve e fazemos revisões até que o roteiro seja fechado. A partir daí entra o trabalho do Mario, que demanda uma produção constante, um ritmo. O Rob e eu começamos a pensar mais seriamente no próximo capítulo quando as últimas páginas já estão para ser publicadas no site. O roteiro até que é um processo rápido, o que o atrasa é justamente a dificuldade em conciliar com todas as nossas atividades. Para o capítulo final da história (que já tem algumas páginas no site), nos reunimos via Skype, mas senti a necessidade de um encontro presencial para termos a certeza de que amarramos todas as pontas que ficaram soltas ao longo dos capítulos. Foi difícil, mas o Rob e eu conseguimos uma brecha na agenda!

 

O que vocês acham que falta para o mercado de quadrinhos nacionais se consolidar?
Rob: O quadrinho nacional nunca esteve tão bem, se pensarmos em qualidade e quantidade. Mas muita gente ainda tem preconceito com o material nacional, achando que é de baixa qualidade (na verdade, muita gente enxerga dessa forma qualquer quadrinho que não seja publicado por uma editora gigante). Felizmente, essa visão está mudando. Os criadores estão fazendo sua parte e o público está começando a crescer. Mas eu ainda sinto falta nessa equação da imprensa. Os sites especializados em quadrinhos divulgam bastante informação sobre a produção nacional, mas aqueles especializados em cultura pop simplesmente ignoram esse assunto, mesmo com quadrinhos fazendo parte da sua pauta. Esse preconceito que eu disse acima, de que “nada que não seja publicado por uma editora gigante vale a pena”, ainda está muito presente nesse “jornalismo pop” que publica mais do mesmo o dia todo.

Mario: Acho que o Rob disse bem. Como eu participo muito do circuito de eventos de HQ, vejo que a produção nunca esteve tão boa. Acho que nunca se produziu tanto quadrinho autoral de qualidade como atualmente. Mas de nada adianta produzir se isso for consumido apenas por autores e uma “bolha” pequena de leitores e fãs. Não é viável, pra maioria esmagadora de autores, se sustentar com a produção e venda de Quadrinhos, e isso faz com que nosso mercado (que não é chamado de indústria como nos EUA, por exemplo), creça num ritmo lento. Editoras apostam em materiais, independentes dão um jeito de publicarem, existe a internet… Sim, tudo isso, mas ainda precisamos de muitos leitores engajados, de uma melhor distribuição e apoio da mídia mais ampla, para que Hqs não sejam vistas como uma forma de entretenimento raso e sim com toda sua potência criativa, mercadológica e artística.

Qual a dica que vocês podem dar para outros autores independentes?

Rob: Conte sempre a história que você quer ler. Respeite seus leitores mas respeite principalmente a história que você quer contar e seus personagens.

Mario: Encare sua produção com seriedade, disciplina e paixão. Nunca deixe de aprender e praticar, você nunca será um artista completo (ninguém nunca será, é um aprendizado eterno e delicioso) Se você quer produzir HQ, produza HQ. Se quiser ser ilustrador, ilustre. Se quer ser escritor, escreva. Nada vem fácil e existe um senso comum errado de que uma carreira artística depende só de técnica, mas é muito maior que isso, então aprenda não só sobre os fundamentos do que você quer produzir, mas também tudo que orbita seu universo. Continue curioso, continue faminto, continue buscando o que você quer.

Por onde os leitores podem acompanhar os seus trabalhos?
Mario: Além do Instagram, Twitter e do Facebook, publico ocasionalmente textos sobre meus trabalhos, eventos e ideias orbitando quadrinhos e a vida de artista no Blog’n’Roll (www.mariocau.blogspot.com). Meu portfolio, biografia completa e loja online podem ser vistos no www.mariocau.com.br. Meus trabalhos também podem ser lidos no Social Comics (https://www.socialcomics.com.br/artista/mario-cau). Sou professor de Quadrinhos e Ilustração na Pandora Escola de Arte em Campinas (www.escolapandora.com.br).

Rob: Além de Terapia, eu também publico minhas crônicas nos blogs http://champ-vinyl.blogspot.com.br/ e http://champ-chronicles.blogspot.com.br/. Também colaboro com outros sites, como o Papo de Homem https://papodehomem.com.br/autores/robgordon/ e sou cohost do podcast Gente que Escreve http://www.fabiombarreto.com/gqe/. E ano passado lancei meu primeiro conto na Amazon: https://www.amazon.com.br/Dia-que-Inspira%C3%A7%C3%A3o-Apareceu-ebook/dp/B01AVHZ0K6/ref=cm_cr_arp_d_product_top?ie=UTF8

Marina: Meu trabalho acontece mesmo é no consultório: atendo pacientes individualmente, famílias e casais. Caso alguém tenha interesse em conversar sobre Terapia e sobre terapia, rs, o contato pode ser feito via e-mail: marikurcis@gmail.com

Quer saber mais sobre Terapia? Confira o vídeo que gravamos sobre a HQ!
https://www.youtube.com/watch?v=AwF7LVELnqk



Bruno Vieira Written by:

Fundador da Craft Comic Books e da Craft Autors.